O Homem Que Ri

08 de outubro
Resenhas

Esta semana selecionei a resenha de um filme que ainda não assisti, mas que quero muito vê-lo devido as críticas que estão sendo feitas a respeito. O filme é nada mais, nada menos que “O Homem que ri“! Uma adaptação de um dos clássicos de Victor Hugo, que traz a história de dois órfãos, Gwynplaine (Marc-André Grondin), um garoto cuja cicatriz no rosto dá a impressão de que ele está sempre sorrindo, e Déa (Christa Theret), uma garota cega. Em pleno inverno, eles são acolhidos pelo grande Ursus (Gérard Depardieu) e passam a viver com ele. Para ganharem dinheiro, os dois jovens decidem fazer um espetáculo pelas estradas, onde o sorriso de Gwynplaine desperta a curiosidade de todos que passam. Aos poucos, o garoto adquire fama e dinheiro, distanciando-o das únicas duas pessoas que sempre gostaram dele: Déa e Ursus.

‘O Homem Que Ri’, uma versão light para Victor Hugo

Por Luiz Zanin Oricchio (O Estado de S. Paulo)

É sempre arriscado adaptar um clássico e Jean-Pierre Améris sabia o que o esperava quando resolveu levar às telas O Homem que Ri, de Victor Hugo. O romance, ainda por cima, já havia ganhado duas versões para a tela antes desta. Comparações e questões de fidelidade ao texto literário à parte, deve-se reconhecer que Améris busca o frescor contemporâneo ao contar pela terceira vez no cinema a história do garoto cujo rosto deformado faz com que pareça estar sempre sorrindo. Ele é Gwynplaine e, junto com uma garota cega, Déa, é recolhido por um artista e mercador ambulante, Ursus (Gérard Depardieu). Eles se incorporam ao espetáculo mambembe e Gwynplaine (vivido Marc-André Grondin, quando adulto) torna-se a principal atração. Vive da curiosidade despertada no povo por sua cicatriz, habilmente explorada pela arte da maquiagem.

Os temas principais de Hugo sucedem-se obedientemente na narrativa. Em primeiro lugar, a questão da diferença, vista aqui como deformidade a ser explorada pela curiosidade popular e, depois, pela não menos mórbida adoração da aristocracia aos seres disformes. O contato do diferente com o povo pode ser incômodo, mas não chega a ser fatal. Já quando Gwynplaine se mete com as esferas mais altas da sociedade, arrisca-se a não sair intacto. Nessas interpretações da trajetória de Gwynplaine, pode-se encontrar em Améris tanto a devoção ao texto de Hugo quando o desejo de aplainá-lo para que se torne nosso contemporâneo. Vale a pena. Afinal, apesar de vivermos na época do politicamente correto, ainda estamos longe da assimilação sem conflitos dos diferentes, por mais que se diga o contrário. Todos sabemos disso muito bem.

Améris busca um desenho visual contemporâneo para essa história escrita no século 19 e ambientada na Inglaterra do século 18. A atmosfera opressiva sugerida pelo texto de Hugo nesse extraordinário romance barroco é atenuada. As cores sugerem algo vagamente mágico como numa atmosfera de Tim Burton, mas, muitas vezes, esse visual se aproxima do kitsch. Tudo, enfim, é levemente aparado e adocicado para que se torne mais palatável ao nosso olhar de cidadãos do século 21, supostamente exaustos pelo cotidiano e em busca de fantasia. Até mesmo o rosto disforme de Gwynplaine ganha dimensão mais light. Na descrição de Hugo, a face do personagem parece uma deformidade assustadora. Tão cruel que não inspira o horror, mas o riso. Daí o sucesso de Gwynplaine no palco de Ursus. Na versão de Améris, é o rosto de um belo rapaz, marcado por uma cicatriz parecida com a do Coringa, de Batman.

Enfim, não se trata de mau filme, mas é preciso identificar a direção a que caminha. Améris, diretor de comédias de sucesso, busca leveza numa história pesada como o chumbo. Procura colocar-se em sintonia com um público que, por suposição, não deseja ver muito sofrimento na tela e, se o vê, prefere que seja ligeiro e remediável. O barroco universo de Hugo, sua defesa sem meias tintas dos pobres e oprimidos, precisa ser temperada para ter livre curso em nossos dias. Essa exigência dietética, na verdade autoimposta pelo diretor, não torna seu filme ruim. Apenas o deixa menor do que poderia ser.

Pelas palavras de Oricchio podemos perceber que não se trata de uma simples adaptação de um clássico de Victor Hugo, mas sim e também um pensar sobre a aceitação das diferenças nas sociedades contemporâneas. Se nos séculos 18 e 19 o tema já era colocado como um grande desafio, creio que nos dias de hoje o desafio continua e anda até mais redobrado, pois como o próprio Oricchio destaca, apesar do discurso politicamente correto sobre as diferenças, estamos longe da aceitação e assimilação dos discursos sobre essas.

Minha opinião sobre o filme? Conto aqui embaixo, nos comentários, assim que assistir, afinal é com o trailer deste filme que encerrarei minha fala em um Congresso que participarei esta semana. Sendo assim… o compromisso é redobrado!!

By Danny Leal

Postado por @rtrevimento em 08 out 2013
Categorias: Resenhas

Um comentário para “O Homem Que Ri”

  1. @rtrevimento disse:

    Ontem a tarde me dediquei a ir ao cinema para assistir ao filme “O Homem que ri”, afinal a palestra que darei será no dia de hoje e precisava vê-lo antes. Confesso que fiquei surpreendida com a sutileza de Jean-Pierre Améris ao recontar esse belíssimo romance nas telas do cinema, principalmente porque a beleza do ator escolhido e a sutileza da cicatriz não nos deixam tão impressionadas quanto a descrição de Victor Hugo. No entanto, não se enganem achando que porque ele foi sutil, que a moral da história se perdeu, pelo contrário. Depois que o filme terminou fiquei cerca de 5 minutos sentada na sala de cinema pensando sobre o rumo que a história tomou, assim como tais acontecimentos ainda são tão presentes em nossa sociedade, mesmo que afirmemos o contrário. Um filme sensível que nos leva a pensar se de fato sabemos lidar com as diferenças e o que fazemos com elas no nosso dia a dia, assim como bem expressou de forma assustadora Victor Hugo. Não deixe de ver!!

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